quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sonhei...

Sonhei contigo... É tão estranho como a sonhar podemos ser tão felizes. A sonhar só ouço o que quero ouvir (ou o que o meu subconsciente quer dizer, diriam alguns). A sonhar sou quem quero ser e não o que os outros fazem de mim.
Acordei e suspirei, não de alívio, mas resignada àquilo que os outros pensam de mim. Afinal foi um sonho... Porque é que tenho de me preocupar com assuntos que não preocupam mais ninguém à minha volta? Tudo poderia ser tão mais simples...

Hoje não vou esperar pela noite para sonhar contigo. Vou fechar os olhos e esvaziar-me de pensamentos de insegurança. Vou deixar cair mais lágrimas de alegria do que lágrimas de tristeza e saudade do que foi e não voltará a ser. Hoje vou ser eu. Vou dançar com os meus sonhos e preencher o meu palco de pessoas que gostam de mim pelo que sou. Pessoas com as mesmas preocupações, talvez. Caminhos diferentes, é certo, mas com um mesmo objectivo final: a felicidade! Não é isto afinal que todos procuramos?


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Horizonte


Caminho a passos largos e apressados em direcção ao horizonte. O meu olhar perde-se naquela linha, lá ao longe. Não sei o que estará para além dela, o que verei, o que conhecerei quando a ultrapassar, mas sei que não vou cair no infinito, porque, afinal de contas, já todos sabemos que a Terra é redonda. Também não haverá nem Adamastores, nem Mostrengos, nem nenhuma outra criatura das profundezas, para afundar o meu navio, construído com madeira e velas de sonhos e que navega com o esforço do meu sopro.
Sorrio, porque sei que vou lá chegar, brevemente. Não sei, exactamente, para onde vou nem o que me espera, mas anseio conhecer um Novo Mundo, novas pessoas, novas vidas...

Mas os amigos de hoje, os amigos do lado de cá do horizonte, esses serão amigos de sempre e para sempre:
"Because I knew you, I have been changed for good!"



sábado, 2 de maio de 2009

"O Andaime"

"O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

(...)

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças —
Mortas, porque hão-de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar."

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"